Curta-metragem "UMA DAS MARIAS"

05/12/24 - Dia 1

O Luca veio aqui em casa e apesar da nossa vontade de registrar tudo, resolvemos só curtir o dia – mostrar a casa pra ele, os possíveis lugares pra gravar, apresentar minha avó e o Juquery.
Acabou que as coisas foram se encaixando e o dia foi mais proveitoso do que imaginávamos – a minha avó falou coisas que não havia falado antes e ganhamos uma visata guiada ao MAOC com o Elielton, responsável pelo museu. Tivemos muito conteúdo!
Nem consigo começar a escrever sobre tudo o que falamos! 

Olhei com novos olhos pra casa da minha avó, para o fato de que ela – assim como os pacientes da ELAP – pintava muito. Ela disse que pintaria novamente, se déssemos um quadro com um desenho. Ela tem como tema recorrente do seu trabalho os trens, as estações das nossas cidades, portas, ciganos e flores. Muitas flores. Acabamos inspirados por isso e pelos autorretratos de Istvan Csibak e pintamos nossos próprios autorretratos.

A minha avó falou que encontrou um paciente enforcado uma vez num quarto. Que um colega tomou um banho de sangue ao abrir uma gaveta do necrotério. Que ja tomou choque.
São tantos horrores que acaba ficando difícil de assimilar o tamanho daquele lugar – principalmente, porque, agora, ao caminhar pelo Juquery, tudo é calmo e pacífico.
Juquery vem da palavra indígena Yu query, que é a planta dormideira. Tudo isso porque vem de uma flor. E eu amei essa flor.
Minha avó trabalhou numa fábrica de cigarros, depois no cartório e só depois entrou como enfermeira no Juquery. Ela tem uma força intensa. Até ao andar de mãos dadas pela rua com ela é possível sentir que seus reflexos mais comuns são resultado de anos carregando, segurando, apertando, banhando, cuidando, alimentando e enfiando agulhas em corpos humanos.
Ela foi feliz no trabalho, foram 36 anos de dedicação. Nunca faltou a um dia de serviço – só quando deu a luz ao seu segundo filho, que tem como apelido o mesmo apelido do hospital: Juca.

É quase impossível pra pessoas da nossa cidade começar a conversar sobre o assunto e não desenvolvê-lo em causos, histórias, nomes, perguntas, algumas respostas, e principalmente, em identificação mútua. É a nossa história.
E eu me pego pensando o tempo todo na dualidade dessa história. Em como é horrível e ao mesmo tempo familiar. Em como, apesar de falar e ver imagens, não temos dimensão do tamanho territorial e destrutivo do hospital que pariu minha cidade. O Luca, enquanto estávamos caminhando entre as árvores do Juquery em direção à Brinquedoteca, disse:
“Quando você falava, eu achava que era tipo Auschwitz!”
E eu falei:
“Era tipo Auschwitz!”
Mas pensei: esse lugar não tem uma energia densa, pesada. O que aconteceu aqui era tipo Auschwitz, minha avó falou que morriam 4, 5 pacientes por dia – numa época em que a população dentro do hospital era maior do que a população da cidade. Mas se isso era um holocausto, por que esse lugar é tranquilo? Será porque nós, cidadãos franco-rochenses, ressignificamos? Não faz sentido pra mim.

Acho que o apagamento do estado junto com o bloqueio da memória de coisas horríveis faz com que a gente simplesmente não sinta.
As histórias vividas e ceifadas aqui me fazem pensar. Me movimentam. Me fazem perguntar: o que eu faço com isso? O que nós fazemos com isso? Arte? Que merda!
Que resposta chula: arte!
Milhares de pessoas morreram.
Que merda que tudo que está em minhas é meu celular pra escrever essa história. É tão pouco, mas é o que eu tenho.
Então vamos a ela.
Uma das histórias.